Também eu

Digite o que lhe apetece. E eu aprovo ou não. Ponto final.  

A lição de Matrix (in “A Página da Educação”, extra-série, VERÃO 2013)

A lição de Matrix
(in “A Página da Educação”, extra-série, VERÃO 2013)

— Há 19 horas
#portugal  #pessoal 
Foi assim que me despedi de João Ubaldo no Leblon

A notícia da morte de João Ubaldo Ribeiro, que me chegou ontem, ao princípio da tarde, surpreendeu-me. Há anos que não leio nada dele, perdi-lhe o rasto, literário e pessoal, e talvez por isso não pude evitar memórias do ano de 1998, mais precisamente do Outono desse ano, quando, mal com a fortuna da vida, resolvi passar quase um mês inteiro de férias no Brasil.

A viagem caminhava para o seu fim, após passagens mais prolongadas por Porto Alegre e S. Paulo. Tinha reservado os últimos cinco dias para o Rio de Janeiro, onde tinha, e tenho, família, e num desses dias fui até a um café numa esquina, nas imediações de uma conhecida livraria no Leblon que, mais tarde, se transformou em cenário de telenovela.

Procurei o que me pareceu ser a melhor sombra na esplanada virada para a rua e ainda não estava sentado quando vi João Ubaldo a duas mesas de mim com uns quantos papéis e uma caneta à frente. Poucos meses antes tinha lido o “Viva o Povo Brasileiro”, um calhamaço de centenas e centenas de páginas que muito me impressionaram e encheram de coragem para lhe perguntar se podia aproximar-me.

– Que é que você quer? – rosnou com a voz grave enquanto me olhou de lado.

O que eu queria e o que ele tinha para me dizer deu para uma conversa que encheu a tarde toda. Derrubámos uns três ou quatro generosos uísques com gelo enquanto ele falou de um familiar natural de Portugal e, sobretudo, de sexo. Muito falou ele de sexo!

– Você gosta de sexo?

De tão directa que foi a pergunta fiquei assustado, mas logo percebi que a linguagem debochada que se seguiu era de quem queria escandalizar ou, então, de quem tinha feito o trabalho de casa como deve ser. Pela conversa acabei por intuir que estava a escrever algo à volta do assunto, o que confirmaria um ou dois anos depois com a fabulosa “Casa dos Budas Ditosos”.

Chegado a casa quis contar o episódio a uma irmã que, à época, tinha, por vezes, acessos de sabedoria inquestionável. “João Ubaldo? Ah!, esse cara passa o dia no boteco a encher a cara de whisky”. A sentença foi tão definitiva que, em jeito de defesa, não me atrevi a relatar nada mais do episódio do sexo e o assunto João Ubaldo morreu ali.

No dia seguinte, véspera do meu regresso ao Porto, corri à esplanada, logo após o almoço, como quem corre para um encontro marcado. Senhor João, assim o tratava o empregado do café, chegou como sempre chegava e sentou-se na que, estou convencido, seria a sua mesa em exclusivo. O uísque com gelo foi ter à mesa e eu saltei do balcão.

– Não enche o saco que hoje não posso – disse ao ver-me na sua direcção.

Fiquei com a mão na cadeira, sem saber o que fazer ou dizer, mas ele próprio resolveu o impasse:

– Olha, desculpe. Senta. Hoje estou de mau humor. Só te peço uma coisa: senta, lê isto aqui e, depois, vai embora.

Isto aqui eram as três folhas manuscritas que vira na véspera. Da leitura, tensa e apressada, recordo apenas que se tratava do relato de um encontro amoroso, algo com contornos de proibido.

Virei o uísque e disse:

– Muito obrigado pelo que me deixou ler. Vim só para lhe dizer que amanhã regresso a Portugal e queria desejar-lhe saúde e bom trabalho.

João Ubaldo Ribeiro sorriu e, pela primeira vez, de forma delicada, respondeu:

– Muito obrigado.

Foi assim que me despedi de João Ubaldo no Leblon.

— Há 6 dias
#portugal  #brasil  #pessoal 
Andei anos a protestar junto de dirigentes do Sindicato de Jornalistas por não ser entregue um exemplar de cada edição da “Jornalismo & Jornalistas” a cada um dos jornalistas com Carteira Profissional de Jornalista, além do respeito pela periodicidade definida que, em tempos, andou pelas ruas da amargura. Que ficava caro, que a revista chegava às redacções, que um sem número de argumentos… E eu calava-me porque, na verdade, tinha acesso à revista na Redacção e, se quisesse, podia sempre fazer “download” do ficheiro respectivo. E calado continuei nos últimos anos porque, mesmo já não estando em Redacção nenhuma, habituei-me a “puxar” o ficheirozito e, depois, a folheá-lo lentamente, em função das disponibilidades. Que eu saiba, a “Jornalismo & Jornalistas” é há anos a única publicação periódica existente em Portugal que reflete os problemas do sector e da profissão. O que só por si lhe confere um estatuto… único! Ao chegar a casa, ao fim do dia de ontem, verifiquei, com surpresa, que tinha na caixa de correio a última edição. E não houve engano: a publicação foi dirigida, deliberadamente, para a minha morada! Virei o plástico da revista uma dúzia de vezes à procura de explicação para o sucedido, e nada. E só um bom tempo depois percebi que a correspondência se deve, em exclusivo, ao facto de ser associado da Casa da Imprensa. Mas não deixei de pensar, sorridente, na ironia da vida: enquanto jornalista nunca tive a “Jornalismo & Jornalistas” em casa; depois de ter entregue a Carteira Profissional de Jornalista não se esquecem de mim!

Andei anos a protestar junto de dirigentes do Sindicato de Jornalistas por não ser entregue um exemplar de cada edição da “Jornalismo & Jornalistas” a cada um dos jornalistas com Carteira Profissional de Jornalista, além do respeito pela periodicidade definida que, em tempos, andou pelas ruas da amargura. Que ficava caro, que a revista chegava às redacções, que um sem número de argumentos… E eu calava-me porque, na verdade, tinha acesso à revista na Redacção e, se quisesse, podia sempre fazer “download” do ficheiro respectivo.

E calado continuei nos últimos anos porque, mesmo já não estando em Redacção nenhuma, habituei-me a “puxar” o ficheirozito e, depois, a folheá-lo lentamente, em função das disponibilidades.

Que eu saiba, a “Jornalismo & Jornalistas” é há anos a única publicação periódica existente em Portugal que reflete os problemas do sector e da profissão. O que só por si lhe confere um estatuto… único!

Ao chegar a casa, ao fim do dia de ontem, verifiquei, com surpresa, que tinha na caixa de correio a última edição. E não houve engano: a publicação foi dirigida, deliberadamente, para a minha morada! Virei o plástico da revista uma dúzia de vezes à procura de explicação para o sucedido, e nada. E só um bom tempo depois percebi que a correspondência se deve, em exclusivo, ao facto de ser associado da Casa da Imprensa.

Mas não deixei de pensar, sorridente, na ironia da vida: enquanto jornalista nunca tive a “Jornalismo & Jornalistas” em casa; depois de ter entregue a Carteira Profissional de Jornalista não se esquecem de mim!

— Há 1 semana
#portugal  #pessoal 
Conversa de café

Já não sei onde fui surripiar esta foto há coisa de um mês, mais coisa menos coiso, embora desconfie do local, aqui tão perto, afinal, pela disposição das revistas em exposição e, ainda, pelo “Conversas de Café” que encima um cartaz pespegado no espelho, no canto superior esquerdo. Mas pouco me importa o local, apenas guardei a imagem em que tropecei para um dia escrever sobre ela sem saber muito bem ao que ia, sendo certo que não confundo as pessoas com as personagens que elas próprias protagonizam. E aqui vou, agora, depois do introito casuístico que valeu, ontem, um rápido, mas afectuoso, almoço lá para os lados da Rotunda.

Do Manuel António Pina, à direita na foto, continuo a guardar tremendos estímulos a partir dos seus textos, e sobretudo das suas crónicas, que conheço melhor. É espantoso como, de um dia para o outro, de um ano para o outro, a leitura da última página do JN deixou de ser imperiosa.

Do Miguel Portas, figura central, preservo a mais terna e genuína das recordações de um homem com quem convivi e sobre o qual nunca fui capaz de escrever razoavelmente, como já confessei. E que falta faz aquele sorriso forte de menino grande, a palavra humilde na visão humanista que sempre apreciei ouvir, mesmo quando politicamente discordava frontalmente! Nestes dias agitados para a Esquerda portuguesa que ele ajudou a fazer, gostava de o ouvir/ler de novo.

E da Maria de Lurdes Pintasilgo, à esquerda, ficou a memória de uma mulher única. Assumiu, por várias vezes, riscos do arco da velha, em condições que ninguém, hoje, ousa reproduzir. Lembro uma campanha eleitoral extraordinária que não teve eco nas urnas e, sobretudo, o modo nobre e pacífico como aceitou e, essencialmente, passou a conviver com o veredicto popular.

Falo de três pessoas de quem sinto a ausência. São três referências históricas da vida portuguesa em democracia. São três pessoas (que me faltam!) com quem gostava de voltar a ter uma conversa de café.

— Há 1 semana
#portugal  #pessoal 

Um domingo perfeito
Nunca ouvi uma música dos One Direction. E se ouvi desconheço que o tenha feito. Dizem os jornais que a rapaziada, alguma com companhia paternal e ou maternal, outra nem por isso, penou a bom penar longas horas nas filas para entrar no Estádio do Dragão e acomodar-se em local com boa visibilidade. Houve quebras de tensão, crises de ansiedade e o bombeiral teve de regar a malta porque acima dos 30 graus o corpo aquece em demasia. Foi quem queria ir, com aplausos e gritos dos mais entusiasmados. E, se calhar, até houve histórias engraçadas e desgraçadas de que os jornais não falam. E, portanto, não sei.
Eu optei pelo piano de Mário Laginha, regado com os saxofones de Julian Argüelles e as percussões de Helge Norbakken. A música foi, necessariamente, diferente, mas não tive direito à histeria reportada lá para os lados das Antas, não levei seca para me sentar e problemas de tensão arterial só mesmo se quisesse usufruir do plasma que debitou, até ao início do concerto, o Alemanha-Argentina da final do Mundial do meu descontentamento. E, sobretudo, não tive direito a uma improvável banhoca refrescante.
O que sei é que saí da Casa da Música com o peito (alma?) cheio. E não fui o único. Além de que a Leonor Loureiro, que com 13 anos arrastou para os 1D uma dezena de amigas desde Lisboa, ficou feliz, lê-se na Imprensa, porque “eles são anormais, estão sempre a brincar e isso é fixe”. Isto sem ninguém a passar-se dos carretos, com destilados ou fermentados, linhas brancas ou mau feitios à mistura. Em suma: um domingo perfeito, no Porto.
[A foto é do Paulo Pimenta]

Um domingo perfeito

Nunca ouvi uma música dos One Direction. E se ouvi desconheço que o tenha feito. Dizem os jornais que a rapaziada, alguma com companhia paternal e ou maternal, outra nem por isso, penou a bom penar longas horas nas filas para entrar no Estádio do Dragão e acomodar-se em local com boa visibilidade. Houve quebras de tensão, crises de ansiedade e o bombeiral teve de regar a malta porque acima dos 30 graus o corpo aquece em demasia. Foi quem queria ir, com aplausos e gritos dos mais entusiasmados. E, se calhar, até houve histórias engraçadas e desgraçadas de que os jornais não falam. E, portanto, não sei.

Eu optei pelo piano de Mário Laginha, regado com os saxofones de Julian Argüelles e as percussões de Helge Norbakken. A música foi, necessariamente, diferente, mas não tive direito à histeria reportada lá para os lados das Antas, não levei seca para me sentar e problemas de tensão arterial só mesmo se quisesse usufruir do plasma que debitou, até ao início do concerto, o Alemanha-Argentina da final do Mundial do meu descontentamento. E, sobretudo, não tive direito a uma improvável banhoca refrescante.

O que sei é que saí da Casa da Música com o peito (alma?) cheio. E não fui o único. Além de que a Leonor Loureiro, que com 13 anos arrastou para os 1D uma dezena de amigas desde Lisboa, ficou feliz, lê-se na Imprensa, porque “eles são anormais, estão sempre a brincar e isso é fixe”. Isto sem ninguém a passar-se dos carretos, com destilados ou fermentados, linhas brancas ou mau feitios à mistura. Em suma: um domingo perfeito, no Porto.

[A foto é do Paulo Pimenta]

— Há 1 semana
#portugal  #pessoal 
Borregada do Espírito Santo →

Que o Mourinho dos jornais portugueses não goste do Francisco Louçã, das suas ideias e propostas, eu percebo e, democraticamente, aceito.

Mas aquela coisa de meter o Costa ao barulho embrulhada com a transformação da Portugal Telecom em “vítima colateral” (a classificação é do “Moutinho”) cheira-me a BES, cuja sigla significa borregada do Espírito Santo.

— Há 1 semana
#portugal  #pessoal 
Tenham vergonha e nunca digam que não sabiam
A Imprensa portuguesa viveu, ontem, um dia fértil em noticiário originário na banca e finanças, com o BES na berlinda. O FMI falou, sob a capa de “uma fonte”, em “bolsas de vulnerabilidade” na banca portuguesa, sem nunca se referir explicitamente ao grupo até agora liderado por Ricardo Salgado. A Comissão Nacional de Valores Mobiliários viu-se forçada a suspender do jogo da bolsa as acções do Banco Espírito Santo, que se afundaram em mais de 15%. O presidente do Banco Espírito Santo Investimento, José Maria Ricciardi, que não ganhou o braço-de-ferro a Salgado, dirigiu-se aos seus trabalhadores, perdão, colaboradores, em Língua Inglesa, e garantiu-lhes que o que está em curso no BES em nada lhes tocará. E o Banco de Portugal também transmitiu uma mensagem de tranquilidade aos depositantes do BES. É certo que o filme nasceu há meses, quando se soube de mais de quatro mil milhões em trânsito para Luanda sem outra garantia bancária que não a da própria República Popular de Angola. Mas a película acelerou com o investimento desastroso da Portugal Telecom de 900 milhões de euros na Rioforte, uma empresa em desagregação do Grupo Espírito Santo. A aplicação vence, maioritariamente, dentro de cinco dias, e o reembolso está em risco. Quer dizer: a Rioforte (leia-se, o BES) poderá não ter como pagar, e Henrique Granadeiro e Zeinal Bava poderão ter destruído, por acto de gestão, uma empresa que, ainda recentemente, era uma “jóia da Coroa”. Sendo que há quem diga que até a própria Coroa pode ir no arrastão. Certo, ainda, é que as bolsas mundiais entraram em ebulição e o caso mereceu o olhar atento de jornalistas europeus e norte-americanos.
A história é extremamente complexa e estará aqui, seguramente, mal contada. Mas o que vejo de curioso nisto é que toda esta gente – com as suas éne ramificações financeiras, afectivas, electivas, partidárias & familiares – controlou, desde o primeiro quartel do século XX, a Comunicação Social em Portugal. Foi, e é, dona, proprietária, co-proprietária, gestora, accionista, participada ou investidora, adaptando-se no tempo a linguagem com que os jornais (as rádios e as televisões) fazem o embrulho dos negócios.
Num dia tão estranho como o de ontem não consigo deixar pensar na greve de hoje dos trabalhadores da Controlinveste, grupo em que, para o bem e para o mal, a PT, o BES e Angola (que não os angolanos do Sol, outros…) têm pesadíssimas e incontornáveis responsabilidades. Não tenho expectativas especiais quanto aos resultados da greve – os “Mourinhos” do jornalismo, com ou sem cláusulas milionárias nos respetivos contratos, tratarão de fazer com que tudo se passe dentro da maior normalidade.
Mas esta greve tem todas as condições para a ser a última no sector da Comunicação Social. O jornalismo do “quarto poder” acabou, já não existe autonomia crítica e controlo dos outros poderes (político, económico e judicial). A repressão do poder financeiro – e, portanto, da PT e do BES, também – silenciou os jornalistas, que deixaram de ter um compromisso ético-deontológico com a profissão e com sociedade, em nome de uma carteira recheada de cartões de crédito, da utilização de um automóvel ou, até, de um simples telemóvel. Haja, pois, coragem para assumir, quem ainda o pode fazer, que, sendo a greve o pior dos caminhos, é tempo de não serem os mesmos de sempre a pagar pelos erros, esmagadoramente grosseiros, de gestão e de opção editorial. O progressivo esvaziamento das redacções está a redundar num problema delicado para a democracia, já para não falar do direito à liberdade de informação. E, sobretudo, tenham vergonha e nunca digam que não sabiam.
[Foto de Ruben Guerreiro]

Tenham vergonha e nunca digam que não sabiam

A Imprensa portuguesa viveu, ontem, um dia fértil em noticiário originário na banca e finanças, com o BES na berlinda. O FMI falou, sob a capa de “uma fonte”, em “bolsas de vulnerabilidade” na banca portuguesa, sem nunca se referir explicitamente ao grupo até agora liderado por Ricardo Salgado. A Comissão Nacional de Valores Mobiliários viu-se forçada a suspender do jogo da bolsa as acções do Banco Espírito Santo, que se afundaram em mais de 15%. O presidente do Banco Espírito Santo Investimento, José Maria Ricciardi, que não ganhou o braço-de-ferro a Salgado, dirigiu-se aos seus trabalhadores, perdão, colaboradores, em Língua Inglesa, e garantiu-lhes que o que está em curso no BES em nada lhes tocará. E o Banco de Portugal também transmitiu uma mensagem de tranquilidade aos depositantes do BES. É certo que o filme nasceu há meses, quando se soube de mais de quatro mil milhões em trânsito para Luanda sem outra garantia bancária que não a da própria República Popular de Angola. Mas a película acelerou com o investimento desastroso da Portugal Telecom de 900 milhões de euros na Rioforte, uma empresa em desagregação do Grupo Espírito Santo. A aplicação vence, maioritariamente, dentro de cinco dias, e o reembolso está em risco. Quer dizer: a Rioforte (leia-se, o BES) poderá não ter como pagar, e Henrique Granadeiro e Zeinal Bava poderão ter destruído, por acto de gestão, uma empresa que, ainda recentemente, era uma “jóia da Coroa”. Sendo que há quem diga que até a própria Coroa pode ir no arrastão. Certo, ainda, é que as bolsas mundiais entraram em ebulição e o caso mereceu o olhar atento de jornalistas europeus e norte-americanos.

A história é extremamente complexa e estará aqui, seguramente, mal contada. Mas o que vejo de curioso nisto é que toda esta gente – com as suas éne ramificações financeiras, afectivas, electivas, partidárias & familiares – controlou, desde o primeiro quartel do século XX, a Comunicação Social em Portugal. Foi, e é, dona, proprietária, co-proprietária, gestora, accionista, participada ou investidora, adaptando-se no tempo a linguagem com que os jornais (as rádios e as televisões) fazem o embrulho dos negócios.

Num dia tão estranho como o de ontem não consigo deixar pensar na greve de hoje dos trabalhadores da Controlinveste, grupo em que, para o bem e para o mal, a PT, o BES e Angola (que não os angolanos do Sol, outros…) têm pesadíssimas e incontornáveis responsabilidades. Não tenho expectativas especiais quanto aos resultados da greve – os “Mourinhos” do jornalismo, com ou sem cláusulas milionárias nos respetivos contratos, tratarão de fazer com que tudo se passe dentro da maior normalidade.

Mas esta greve tem todas as condições para a ser a última no sector da Comunicação Social. O jornalismo do “quarto poder” acabou, já não existe autonomia crítica e controlo dos outros poderes (político, económico e judicial). A repressão do poder financeiro – e, portanto, da PT e do BES, também – silenciou os jornalistas, que deixaram de ter um compromisso ético-deontológico com a profissão e com sociedade, em nome de uma carteira recheada de cartões de crédito, da utilização de um automóvel ou, até, de um simples telemóvel. Haja, pois, coragem para assumir, quem ainda o pode fazer, que, sendo a greve o pior dos caminhos, é tempo de não serem os mesmos de sempre a pagar pelos erros, esmagadoramente grosseiros, de gestão e de opção editorial. O progressivo esvaziamento das redacções está a redundar num problema delicado para a democracia, já para não falar do direito à liberdade de informação. E, sobretudo, tenham vergonha e nunca digam que não sabiam.

[Foto de Ruben Guerreiro]

— Há 2 semanas
#portugal  #pessoal 
Jogo de sombras na Comunicação Social portuguesa.

Jogo de sombras na Comunicação Social portuguesa.

— Há 2 semanas
#portugal  #pessoal  #fotografia 
Parque de estacionamento de violoncelos.

Parque de estacionamento de violoncelos.

— Há 2 semanas
#portugal  #pessoal  #fotografia 
Há qualquer coisa de finitude neste ambiente que nos rodeia



1. “Há qualquer coisa de finitude neste ambiente que nos rodeia, e me assusta”. A ideia é de Luís Fontoura – secretário de Estado da Comunicação Social em 1981 e para a Cooperação e Desenvolvimento, de 1982 a 1983, no Governo na AD de Pinto Balsemão, e quatro vezes vice-presidente do PSD recentemente falecido – como confidencia, hoje, no DN, Baptista-Bastos.

2. O segundo maior logro financeiro da História de Portugal – o terceiro é da responsabilidade de Alves dos Reis, a quem a Wikipedia ainda atribui, injustamente, o título de maior burlão da história portuguesa – está vivo e para durar, e a família Espírito Santo até já teve de abdicar da liderança do grupo que mandou no País durante tantos e tantos anos, com a conivência activa de eleitos e governantes.

3. O Estado português tenta cobrar o que não pode cobrar: se calhar, alguns incautos cairão no arrastão – é dos jornais de hoje.

4. Sophia, finalmente, está no Panteão. E depois de ter visto um directo num canal televisivo e as reportagens dos outros dois generalistas a insistirem, convulsivamente, na importância histórica de uma tal de “Andersen” – com a inevitável auto-celebração de Aníbal António Cavaco Silva, Maria da Assunção Andrade Esteves e Pedro Manuel Mamede Passos Coelho – vou escrever de seguida mil vezes “AN-DRE-SEN”, para nunca me acontecer a mesma confusão, salvo se for acometido por uma imprevista demência.

5. Para segunda-feira está anunciada, à porta do DN, em Lisboa, e do JN, no Porto, a partir das 18.30 horas, uma vigília contra o despedimento colectivo de 160 amigos meus do grupo Controlinveste. São fórmulas passadas que não me agradam, mas estarei lá, não fico indiferente ao segundo maior ataque à Democracia portuguesa – o primeiro é um tal de “caso BPN” que, por acaso, ou não, teve um papel determinante na ruína das contas do nosso País.

6. A cocaína anda na banana e já passou pelo FCP, diz o JN e reforça o DN, ou vice-versa, que vai dar ao mesmo, é produto branco.

7. O “Correio da Manhã” assassina uma belíssima foto, de uma Mariline Alves de quem nunca ouvi falar, e peço desculpa à autora pela ignorância, se for o caso, glosando ao limite a ignorância colectiva: qualquer morte é investigada quando a causa não é natural. E se um dos progenitores for personagem mediático não há que enganar, explora-se o filão até sugar…

Há qualquer coisa de finitude neste ambiente que nos rodeia.

— Há 3 semanas
#portugal  #pessoal 
Pedro Abrunhosa - 'Será' (Legendado) →

Por estes dias fala-se muito, por aqui, na morte. Na morte do filho de uma jornalista. No pedido de respeito dirigido pela jornalista à Comunicação Social. E no conteúdo (profissional e emotivo) do arranque o Jornal da Noite da TVI do último domingo.

Cruzei algumas vezes com o André, no colo da mãe, na mesma sala de espera de um consultório pediátrico, no Porto, nas visitas de rotina do meu mais velho. O registo vale apenas pela circunstância, porque o Gonçalo nem se lembra do André e os diálogos travados com a Judite ficaram-se pela ocasião. Mas a vida é mesmo assim, feita de acasos. Uns felizes, outros infelizes, e outros ainda nem uma coisa nem outra.

A dor de uma/um mãe/pai que perde um filho é de uma dureza impossível de explicar. E falo do que falo apenas pela convivência de perto com essa realidade. Não há palavras que tornem inteligível a inversão súbita do caminho da Natureza.

Como profissional da Comunicação Social vivi sempre de perto com a morte. E sempre me senti desconfortável. Noticiar a morte dos outros, mesmo quando nunca ouvimos falar dos protagonistas da informação, não é fácil. E, em certos meios, é ainda mais complexo porque, por um sem número de razões, inclusivamente culturais e históricas, são feitas exigências melindrosas, como, por exemplo, ir a casa da família e “sacar” a foto do falecido. Admito que endrominei várias vezes as minhas chefias. E, feito chefe, também nunca as pedi a ninguém. Há? Óptimo. Não há? Óptimo. Sei que também fui intrujado, mas nunca me ralei.

A morte bateu forte à porta da minha família ainda não era jornalista. E porque se tratava de uma situação trágica e de alegado eventual interesse noticioso lá apareceu a inefável estagiária a pedir informação, comentário e, se possível, uma foto. Informações eram as oficiais, comentários não houve e, quanto a fotos, que nem se lembrasse de repetir a graça porque não responderia por mim. Fosse pela ameaça, fosse pelo que fosse, a moça desapareceu rapidamente e redigiu uma notícia pequena e simples, escorreita.

“Nesta profissão as palavras são a nossa vida e neste momento aquilo que nos resta”, terá redigido a Judite no comunicado lido por José Alberto Carvalho. A maior parte dos jornalistas entendeu o apelo, porque colocou-se a si próprio no cenário. E, se fosse comigo o que quereria eu? Silêncio, paz, distância, sossego. Mas há quem não o tenha percebido, ou percebendo insistiu em explorar a veia lamecha e choraminga que quero crer tipicamente lusitana. Pela única razão de que a exploração boçal dos sentimentos assegura vendas, rende audiências e dinheiro.

A morte é um fim (ou um início, garantem amigos meus que não eu) e esse momento irrepetível, que não é festivo, não pode ser alvo de especulação ou qualquer outro tipo de aproveitamento. Ao despirmo-nos da humanidade com que nascemos perdemos o direito ao respeito por parte dos outros. E este é um bem inestimável.

A propósito de outras mortes e disto também, como a morte a conta-gotas recentemente decretada para cada um de 160 amigos meus da Controlinveste, ou a morte em ritmo “reality show”  a que temos vindo a assistir há 14 anos da mãe de Rui Pedro, um outro amigo disse-me, recentemente, que isto “incha, desincha e passa”. O problema é que, no que a mim respeita, por vezes desincha aparentemente mas teima em não passar. E continuo a ver toda a gente refastelada, a assistir a todo o tipo de abusos, mesmo aqueles que não lembram ao Diabo.

E com tudo isto eu não me conformo.

— Há 3 semanas
#portugal  #pessoal 

Olha que coisa linda.

— Há 3 semanas
#portugal  #pessoal  #Gondomar  #turismo 
O Cinema Ideal e a Casa da Imprensa →

Recomendo a quem tem ligações associativas (e, vá lá, afectivas) com a Casa da Imprensa.

— Há 3 semanas
#portugal  #pessoal  #jornalista